Governo transforma oportunidade em ameaça à soberania 

Guilherme Estrella, o “pai” do pré-sal

 

Por Alessandra Campos

Em palestra na Universidade de Campinas (Unicamp), npo dia 05 de novembro, o geólogo e petroleiro Guilherme Estrella atacou a entrega do pré-sal às empresas internacionais e alertou que o governo brasileiro está transformando a grande oportunidade de desenvolvimento do país em ameaça à soberania nacional. Ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobrás entre os anos de 2003 e 2012, Estrella falou sobre o tema “Território e Energia – Geologia do pré-sal e geopolítica do petróleo”. A palestra foi realizada no Instituto de Geociências.
Considerado o “Pai do Pré-sal”, pelo fato de ter coordenado os estudos que levaram à descoberta, em 2006, na costa litorânea do país, de uma das maiores reservas de petróleo do planeta, o geólogo iniciou a palestra afirmando que os brasileiros não conhecem as riquezas e a importância do Brasil no cenário mundial. Ele enfatizou ainda que a Petrobrás surgiu com o objetivo de produzir energia suficiente para o país enfrentar com segurança um processo de industrialização.

“Os países mais importantes do mundo foram construídos através do seu processo industrial, porque a indústria contém inserida na sua própria essência o desenvolvimento científico e tecnológico, que transforma um recurso em riqueza. Nosso país não produzia petróleo, mas brasileiros fundaram uma empresa com a missão de descobrir petróleo em terras brasileiras”, conta ele.

Segundo Estrella, o petróleo foi descoberto pela Petrobrás no segundo poço perfurado, em Guaricema (SE), em novembro de 1968. Posteriormente, a exploração na Bacia de Campos trouxe a autossuficiência. As reservas produziam 80% do petróleo nacional. “Mas com o Brasil começando a crescer, perdermos a autossuficiência e as outras bacias estavam inexploradas, abandonadas, porque as empresas estrangeiras não quiseram investir e correr o risco exploratório”, destaca.
O país tinha necessidade de encontrar novas reservas e o governo passou essa tarefa à Petrobrás. “Retiramos então as sondas da Bacia de Campos e as colocamos ao sul, na Bacia de Santos, em áreas que já vinham sendo prospectadas. Enfrentamos o desafio de perfurar 2 mil metros de sal, 7 mil metros a partir do nível do mar. Já tínhamos desenvolvido tecnologia em águas profundas no monopólio estatal”, afirma.
Na Bacia de Santos, a Petrobrás descobriu uma das maiores jazidas de petróleo do mundo. “O pré-sal veio para dar segurança energética e ao investimento industrial de longo prazo”, argumenta. Estrella critica a retirada da estatal como operadora única do pré-sal. “A Petrobrás sendo do governo brasileiro e operadora única se encaixa perfeitamente no projeto de nação de industrialização minimamente soberana”.
O pré-sal, ressalta ele, trouxe ao Brasil uma imensa oportunidade de avançar e inovar. “Estamos transferindo para interesses estrangeiros a produção de uma energia absolutamente gigantesca, que é a nossa grande oportunidade de desenvolvimento nacional minimamente autônomo”, declara.
Estrella reforça que há muita coisa em jogo na questão do petróleo nacional. “Estamos sendo objeto de interesses não brasileiros. O pré-sal é o tijolo gigantesco de ouro que faltava para sermos efetivamente um país soberano. Não podemos ser ingênuos de achar que essas coisas não estejam acontecendo de forma planejada e projetada, que é simplesmente uma teoria da conspiração”, alerta ele.
O geólogo argumenta ainda que a Petrobrás não é mais uma companhia estatal. “Ela não é privada, porque a maioria das ações ainda está com o governo. É uma companhia de controle estatal, mas de gestão privada. Não é de uma gestão de capitalismo produtivo privado. Estamos passando por uma gestão de capitalismo financeiro privado, que exige que se produza a renda máxima no menor espaço de tempo”. Ele exemplificou seu raciocínio: “Por que eu vou ficar na Bahia, se o investimento que eu fizer lá vai demorar e a lucratividade é pequena? Então, prefiro vender todas as refinarias do país e ficar no pré-sal, no eixo Rio-São Paulo, onde é filé mignon do refino, que isso vai me dar renda máxima no menor prazo possível”.
Na opinião de Estrella, a Petrobrás perde sua marca de estatal, de ser comprometida com o desenvolvimento nacional e se torna rentista. “O capitalismo rentista não corre risco de maneira nenhuma e não quer empregados. É tudo robotizado”, diz ele, que arrisca apontar que o futuro que se desenha para a Petrobrás é o de uma empresa de investimento financeiro, sem empregados. “Todo mundo será contratado, do presidente ao cargo mais modesto da companhia. A lei trabalhista não existe mais e o grande capital rentista não quer saber de previdência social e sim de empregar o mínimo, para tirar o máximo no menor tempo possível”, conclui.

Estrella encerrou a palestra falando sobre planejamento estratégico que, de acordo com seu aprendizado, é transformar as ameaças em oportunidades. “O erro maior de tudo é transformar uma oportunidade em uma ameaça e, infelizmente, é isso que estamos fazendo com o pré-sal. Ao invés de ser uma oportunidade para o desenvolvimento científico brasileiro, da engenharia e de mais igualdade e equilíbrio social, está se tornando a maior ameaça da história do Brasil para retornarmos à posição de colônia, de perda da soberania nacional”.