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É hora de unir as esquerdas, afirma presidente do PSOL

Mestre em História pela Universidade de Brasília, Juliano Medeiros, de 35 anos, assumiu a presidência nacional do PSOL em janeiro de 2018, talvez o ano mais conturbado da recente história do país e de seu partido. Meses depois, o país assistiu ao assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, ao crescimento de ataques a militantes e movimentos sociais, o avanço da extrema direita e culminou o ano com o auto exílio do deputado Jean Willis.

Para conversar sobre esses e outros temas, Juliano recebeu a reportagem do Jornal Petroleiros em seu apartamento em São Paulo. A íntegra da conversa pode ser conferida no vídeo. Leia, a seguir, trechos da entrevista concedida ao jornalista Norian Segatto.

 

Observatório da Democracia

Essa foi uma iniciativa importante das fundações |ligadas a partidos de esquerda | para tentar decifrar a natureza do governo Bolsonaro e os ataques que ele pode promover à democracia. O governo Bolsonaro é muito diferente de tudo o que vivemos ao longo desses 30 anos de redemocratização, em que houve certa estabilidade entre os governos do PSDB e do PT, um ambiente que permitia o papel de situação e oposição. O governo Bolsonaro subverte isso, é produto de uma crise da democracia, do sistema de representação, e expressa valores do que há de mais atrasado na sociedade brasileira, assim, precisamos entender se há de fato riscos à democracia.

 

Renúncia de Jean Willis

Ninguém renuncia a um mandato recém conquistado se não estiver passando por um momento muito difícil e respeitamos a decisão dele. Ele fez uma reflexão pessoal sobre as ameaças e perseguição política que tem vivido, e que começaram a ser dirigidas à família do Jean, à mãe dele. Isso o deixou muito vulnerável emocionalmente, ele não sentiu que as medidas de proteção tomadas pelo poder público fossem suficientes. Essa decisão nos deixou tristes, mas não tenho dúvidas que o David Miranda |suplente de Jean Willis, que assumiu o mandato de deputado federal | vai fazer um grande trabalho.

 

Escalada da violência

Estamos muito preocupados, talvez nenhum outro partido tenha sido vítima de forma tão cruel dessa escalada de violência. Além da Marielle, houve outros episódios contra ativistas sem teto, sem terra, sindicalistas e defensores de direitos humanos, isso é uma constante no Brasil, mas tem piorado nos últimos anos. A situação que envolve o ex-presidente Lula também é uma expressão desse aumento do cerceamento das liberdades políticas e individuais. Eu não tenho dúvida de que essa escalada é um componente que é do fortalecimento das tendências de extrema direita.

 

Avanço mundial da direita

O contraponto ao crescimento da extrema direita tem de ser global. Na Europa, que é uma referência de estados democráticos mais estáveis, está havendo um grande avanço de forças de direita em diversos países, isso mostra que há um problema de ordem econômica, a globalização está sendo colocada em xeque, e uma crise de representatividade dos partidos tradicionais de centro-esquerda e centro-direita. A crise de globalização e a crise da democracia liberal são terrenos férteis para saídas radicais, à direita ou à esquerda.

 

Bloco de esquerda

Cada partido tem seu projeto de autoconstrução, isso é legítimo, e é isso que as esquerdas tentam fazer em um período de fim do ciclo da experiência do PT como força de governo. Mas isso não pode se sobrepor à necessidade de compor uma ampla frente de partidos que fazem oposição ao governo Bolsonaro, para tentar barrar os ataques ao povo brasileiro. Para isso precisamos, também, de muita mobilização de rua.

 

Privatização da Petrobrás e entrega do pré-sal

Desde sua fundação, o PSOL defende a Petrobrás 100% estatal. Houve avanço do sistema de concessão para o de partilha, mas ainda não é o sistema ideal, defendemos o controle 100% estatal e público da Petrobrás, o que não significa tirar a empresa do mercado de ações, mas garantir o controle do estado porque o petróleo se tornou uma reserva estratégica para qualquer estado que quer desenvolver um projeto de crescimento autônomo. Sem o petróleo o Brasil se tornará um país vulnerável em sua política externa.