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Terezinha Udovic Uma vida intensa e dedicada às lutas sociais

Terezinha Pereira Udovic, a dona Terezinha, tem 76 anos e uma vitalidade e disposição de dar inveja a muita adolescente. A pensionista, que foi casada durante 31 anos com o petroleiro aposentado da Refinaria de Capuava (Recap), Lourival Udovic, sempre viveu intensamente e sua história de vida daria para escrever um livro.

Nascida na cidade paulista de Tapiratiba, em 21 de janeiro de 1942, e filha de um vereador do Partido Democrata Cristão (PDC), Terezinha cresceu em Mauá, envolvida com a política. “Meu pai era truculento e minha mãe submissa. Eu não queria essa vida pra mim. Eu era rebelde, não me submetia às regras, fugia de casa. Fui expulsa do colégio interno com 13 anos e comecei minha luta política muito jovem”, conta.

Terezinha tinha apenas 12 anos quando iniciou sua jornada de ativista. Na época, a menina integrava a Juventude Operária Católica (JOC), movimento da igreja católica, que lutava contra a ditadura militar. “Eu atuava como mensageira de cartas enigmáticas, escritas com desenhos e colagens de jornal. Fui treinada para ler cartas em código. Até hoje sou boa nisso”, diz ela, referindo-se aos jogos de passatempo que têm facilidade para decifrar.
Aos 19 anos, ela foi obrigada a dar um novo rumo em sua vida, já que o pai não aceitava ter em casa uma filha solteira e grávida. A jovem deixou o movimento e se mudou para Marília, onde arrumou emprego como babá na casa de um médico.

 

Em coma

O filho tinha dois anos quando Terezinha teve uma grave infecção na boca, tendo que extrair todos os dentes e as amígdalas. Na cirurgia, ela sofreu uma hemorragia interna, que causou trombose cerebral e a deixou em coma por 24 horas. “No hospital, acharam que eu ia morrer”, recorda-se.

Contrariando as expectativas, ela sobreviveu e no ano seguinte, em 64, quando o golpe militar foi deflagrado, a mensageira voltou à ativa. “Nas minhas idas e vindas, vi pessoas serem presas e sofrerem brutalidades por parte da polícia”, lembra.
A babá tinha uma vida bem discreta e atuava em segredo absoluto. “Nesse período eu era noiva de um militar e nem ele, nem meu patrão e nem meus pais sabiam que eu era militante”, conta.

Dops
Apesar de todo cuidado, Terezinha acabou sendo reconhecida e delatada por um paciente que estava internado na Santa Casa de Marília. “Fui presa na rua, a caminho do trabalho, e levada ao Dops, em São Paulo. Lá prestei depoimento e jogaram água fervendo no meu colo. Até pouco tempo atrás eu ainda tinha a marca na pele”, afirmou.
Segundo ela, quem a livrou da cadeia foi o ex-namorado militar – nessa época, o relacionamento amoroso já tinha terminado. “Quando me prenderam, eu estava com documentos falsos. Meu nome era Teresa Couto”, relembra.
Ela conta que ouvia muitos gritos no Dops de pessoas sendo torturadas e uma de suas companheiras de movimento, chamada Gilda, chegou a perder o útero. “Era muito comum as mulheres serem perfuradas com agulhas de crochê e tricô para falarem”, declarou.

Poucos meses depois, Terezinha mudou-se para a capital paulista e lá organizou as empregadas domésticas para formarem uma associação. Assim, nasceu a Santa Zita, no bairro Paraíso, com cerca de 20 associadas.

Casamento
Em 75, Terezinha reencontrou seu colega de infância, Lourival, e casaram-se em seis meses. “Eu sempre paquerei o Lourival, desde os anos 50, quando ele jogava no Independente Futebol Clube de Mauá, mas ele nunca se tocou”, revela. No ano seguinte, o casal teve seu primeiro filho e um ano depois, nasceu o segundo.

Depois do casamento, Terezinha parou de trabalhar fora e, contrariando o marido, voltou para a militância. “Criamos um movimento a favor do atendimento pelo SUS na Zona Leste e no Grande ABC, porque, antigamente, para ter atendimento médico gratuito a pessoa precisava ter carteira assinada”, comentou.

Idas e vindas
Ela também foi uma das articuladoras do Movimento de Mulheres, que conquistou o 2º Centro de Convivência e a Delegacia da Mulher em Mauá. Em Brotas, onde morou no início dos anos 90, organizou o primeiro movimento regional de saúde e trouxe para a cidade o segundo posto médico.
Arrumou confusão com a polícia, foi ameaçada e se mudou para Ibaté. Lá, participou da Pastoral do Menor, dos Vicentinos e do Conselho Tutelar. Terezinha denunciou um investigador, por tráfico de drogas. Como vingança, de acordo com ela, foi armada uma emboscada para um de seus filhos, que acabou preso por seis meses.
Terezinha, Lourival e os filhos mudaram-se para Cosmópolis, onde organizou o Centro de Convivência da Mulher. Ela disputou a eleição para vereadora e ficou como suplente. A família foi vítima de um assalto violento. Lourival passou 40 minutos com uma arma apontada na cabeça e entrou em depressão profunda. A esposa decidiu voltar para Brotas, para que o marido pudesse ficar perto da irmã e do cunhado, mas ele não melhorou e faleceu em 2006.

Sem tempo
Cinco anos mais tarde, ela foi morar em Várzea Paulista, onde permanece até hoje. Dona Terezinha vive sozinha e garante que é por opção. “Tenho vários candidatos para casar, mas não tenho tempo pra nada”, justifica. A agenda da pensionista é mesmo apertada. Ela participa dos conselhos municipais do Idoso, da Saúde, da UPA (Unidade de Pronto Atendimento) e de Assistência Social, da Pastoral do Idoso e do grupo de mulheres “Todas por Todas”.

Às quintas-feiras, cuida da Ong Bem Viver, semanalmente faz visitas às instituições cuidadoras de idosos, porque “o Conselho tem que fiscalizar”, e diariamente visita idosos acamados, atendidos pela Pastoral. “Nossa função é ouvi-los, dar atenção e conferir se estão sendo bem cuidados pela família”, destacou.

 

Eu viro bicho!

De sorriso fácil e “boa de prosa”, dona Terezinha é do tipo que não leva desaforo para casa. “Só entra em briga se for pra ganhar. Eu sou barraqueira e não admito que mexam com meus idosos. Eu viro bicho!”, enfatiza.
Para ela, a vida se resume em luta e movimentos sociais. “Minha arma é a lei, o estatuto. Eu envergo, mas não quebro, e até que chegue a hora da minha morte, vou continuar lutando”, sentencia a pequena mulher, dona de uma garra gigante.